Publicado em: 26/11/2012

A situação do Psicólogo Clínico Brasileiro


Por
Psicólogo pela FUMEC em 2001, graduado em Filosofia pela UFMG em 2006 e Mestre em Filosofia pela UFMG. Atua como psicólogo clínico em Belo Horizonte. Escritor autor de quatro livros, editor do blog ‘No gabinete do Psicólogo’ e da página ‘Psicologia no Cotidiano’ no facebook (www.facebook.com/cotidianoepsicologia).

A Psicologia Clínica no Brasil pede ajuda; ou melhor, parece que sua situação está precária há tanto tempo, que ela se esqueceu de que nada está bom. Está conformada, quieta, comemorando os 50 anos de sua profissionalização neste país. Entretanto, dificilmente poderíamos entender a Psicologia Clínica no Brasil como uma profissão. É assim que o dicionário Aurélio define a expressão:

Profissão sf. 1. Ato ou efeito de professar (4). 2. Atividade ou ocupação especializada, da qual se podem tirar os meios de subsistência; ofício.

O psicólogo clínico geralmente professa sua convicção nas técnicas e teorias que regem sua ocupação, que é bastante especializada. Nesse sentido, o exercício da Psicologia Clínica no Brasil é uma profissão. Mas, tirar sua própria subsistência através do exercício da clínica é uma tarefa herculínea para o psicólogo brasileiro. Poucos, em média, conseguem esse feito. Nesse sentido, a Psicologia Clínica brasileira é uma ocupação que mais se assemelha a um hobby do que a uma profissão. E, quando falo em hobby, não estou insinuando que o psicólogo exerce a clínica com pouca seriedade ou dedicação. Existem hobbies que exigem muito de tudo isso, além de profunda paixão. Aliás, é justamente nesse sentido que falo da clínica em Psicologia como um hobby: uma ocupação mantida em grande parte pela paixão, mas que não retribui com o sustento àquele que a exerce.

O principal problema enfrentado pelo psicólogo clínico é a falta de interesse, por parte da sociedade, pelo serviço que ele deseja prestar. Ele descobre que nem sempre aquilo que as pessoas precisam (ou que nós pensamos que elas precisam) é aquilo que elas querem. A faceta mais perigosa da falta de interesse da sociedade é a sua internalização pelo psicólogo clínico. O psicólogo aprende que ele é o principal interessado naquilo que ele faz, e aprende a tratar com naturalidade o fato de viver num mundo que não deseja particularmente aquilo que ele tem a oferecer.

No exercício da clínica, o psicólogo enfrenta a falta de interesse de seus pacientes fazendo a eles todo tipo de concessão. O paciente é tratado na conta devida de um cliente. O psicólogo toma a falta de interesse do paciente como um problema seu, e que, portanto, deve ser resolvido pela “melhora” dos serviços prestados por ele. Em meio à angustia constante da possibilidade de perder seus pacientes, o psicólogo se esquece de que o interesse na melhora é, deve ou deveria ser do paciente, não dele, psicólogo.

No efetivo estabelecimento da Psicologia Clínica como profissão, o psicólogo aprende a tomar como natural o fato de que ele é sempre o interessado em prestar seus serviços, jamais as clínicas em que ele trabalha. Não há empregos para psicólogos clínicos. Ao contrário da maioria das demais profissões de saúde, não há demanda suficiente por serviços de Psicologia Clínica que justifique a contratação de um psicólogo clínico. A profissão de psicólogo clínico é autônoma quase por definição.

Frente à inexistência de empregos para psicólogos clínicos, o profissional que decide por essa área tem duas possibilidades: Tentar ou o consultório particular ou as clínicas de Psicologia espalhadas por aí. Se ele não tiver uma fonte segura e constante de encaminhamentos de pacientes, a tarefa de manter um consultório particular se mostrará quase impossível. Restará a ele as clínicas de Psicologia. Nos contratos de serviço com elas, o psicólogo geralmente aluga seu espaço de trabalho e espera delas receber pacientes conveniados, em sua grande parte. Formalmente, o psicólogo não presta serviço algum à clínica; é a clínica que presta ao psicólogo seus serviços (o aluguel da sala), e por isso o psicólogo não tem direito de receber dela nada além do espaço que alugou. O encaminhamento de pacientes ao psicólogo pela clínica não faz parte do contrato. É quase uma “cortesia”. A clínica, por sua vez, recebe o pagamento fixo pelo aluguel, todo mês. Ao psicólogo não é dada qualquer garantia de que conseguirá retirar de seu trabalho pelo menos o necessário para pagar o aluguel. E uma vez que as clínicas cobram do psicólogo aluguel pelo preço de mercado, e repassam a ele entre dez e vinte reais por consulta de paciente conveniado (geralmente, muito mais próximo dos dez do que dos 20 reais), o psicólogo precisa atender uma grande quantidade de pessoas, contando que elas não faltem a nenhuma sessão, somente para pagar o aluguel. O resultado é que a conta quase nunca fecha, e o psicólogo clínico paga para trabalhar. Até o trabalho escravo, por definição, é mais vantajoso que o trabalho do psicólogo clínico. O escravo não recebe nada, mas tampouco paga para trabalhar.

O Conselho Federal de Psicologia explicitamente relega o profissional representado por ele à sua própria sorte quando ele quer estabelecer contrato com uma clínica. Ao invés de criar normas e propor leis que evitem a exploração do psicólogo, o CFP apenas o aconselha a “tomar cuidado”, lhe desejando boa sorte! É fato que mais de 90% dos psicólogos brasileiros são mulheres. Mulheres são mais receptivas, estabelecem relações intimistas com mais facilidade, são mais acolhedoras, mais empáticas, compreensivas. Essas são qualidades que se encaixam perfeitamente no perfil ideal do psicólogo, e por essa razão a grande quantidade de mulheres psicólogas engrandece a profissão. Por outro, no entanto, o número elevado de psicólogas nos traz dificuldades. Mulheres casadas são geralmente sustentadas pelos maridos. E isso não é diferente no caso das psicólogas. Assim, as psicólogas não carregam sobre as costas o peso da necessidade de buscar sua subsistência. O pagamento da psicóloga geralmente fica todo com ela, ou então entra apenas como um complemento da renda do marido. As clínicas supracitadas atraem em grande parte psicólogas casadas, que não têm a preocupação direta com o ganho. Caso os psicólogos clínicos constituíssem uma classe de profissionais que trabalha pelo sustento próprio, e por provedores de família, o diálogo com essas clínicas e com qualquer um que explore o trabalho do psicólogo seria posto em outros termos. A exploração não aconteceria com tamanha facilidade, mesmo com a omissão do CFP a respeito.

O psicólogo deve aprender a dizer não à exploração do seu trabalho. Não deve aceitar trabalhar em clínicas a não ser que seu saldo seja positivo no final do mês. Deve procurar fazer acordos em que a clínica ganhe proporcionalmente ao seu próprio ganho e à sua produtividade. Se o psicólogo produzir muito e ganhar muito, a clínica também ganhará. Se não produzir nada e não ganhar nada, a clínica nada ganhará. O psicólogo deve saber que a cada concessão abusiva sua a um paciente, e a cada sim dado àqueles que lhe exploram, toda a classe sai perdendo. Quem faz concessões excessivas não dá o valor devido ao seu próprio trabalho, e quem não valoriza seu próprio trabalho não pode cobrar a valorização dos outros. O psicólogo clínico está habituado a trabalhar sozinho em seu consultório. Por isso, ele se torna individualista. Acredita que o único interessado em seu trabalho é ele mesmo, e não percebe que o interesse pelo trabalho de seu colega também pode despertar o interesse dele pelo seu, e que uma classe de profissionais interessados no trabalho uns dos outros aprende a ter mais auto-estima, produz mais e desperta, naturalmente, o interesse das pessoas em geral. O psicólogo perde a consciência do valor daquilo que faz, e por isso se torna submisso e omisso.

 

Confira o texto na integra, acesse:

http://nogabinetedopsicologo.blogspot.com.br/2012/08/a-situacao-do-psicologo-clinico.html

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