Às vezes, um espaço inteiro muda de significado por causa de um livro. De uma autora. De um gesto silencioso que reorganiza não apenas as prateleiras, mas também o modo como uma comunidade olha para si, para sua história e para o mundo ao redor.
Foi assim que, nos últimos anos, a Biblioteca Martinho Lutero começou a ganhar novas vozes --- vozes que antes não eram lembradas, não eram buscadas, não eram lidas. E quando chegaram, chegaram como um chamado: a universidade precisava ouvir, registrar e garantir que esses autores tivessem lugar dentro do espaço onde o conhecimento é construído.
A bibliotecária Thaís Fernandes explica que tudo começou com uma pergunta simples, feita durante o mês da Consciência Negra: "Nos perguntaram se a biblioteca possuía obras de autores negros e negras --- e percebemos que essa representatividade não estava garantida. Para corrigir essa falha e fortalecer a luta antirracista, criamos uma lista de títulos essenciais e incorporamos essas obras ao acervo por meio do projeto Pagamento de Multa com Livro."
A iniciativa permite que alunos quitem pendências doando obras de autores negros. O impacto foi imediato: as estantes ganharam diversidade, potência e profundidade. "Essa é uma boa prática que combate o epistemicídio --- o apagamento intelectual de autores negros e negras. Agora, toda a comunidade acadêmica tem acesso a essas narrativas durante todo o ano, não apenas em novembro."
Representatividade que educa, transforma e inspira
Essa construção se reforça ainda mais quando o país celebra a chegada de Ana Maria Gonçalves à Academia Brasileira de Letras, ocupando a 33ª cadeira - a primeira mulher negra em 128 anos de história, reforçando a importância de autor(es) e suas obras ocuparem diferentes espaços.
Sua obra, Um defeito de cor, repousa nas estantes da Biblioteca Martinho Lutero como quem sabe que sempre pertenceu a esse espaço. Não chegou por acaso: chegou por escolha, por consciência, por política.
A presença da obra de Ana Maria Gonçalves --- agora imortal da ABL --- fortalece a ideia de que representatividade forma consciência, amplia repertórios e transforma modos de ver o mundo.
E no silêncio cheio de significado de uma biblioteca, cada obra antirracista incorporada ao acervo é mais do que um livro: é um gesto de reparação, política e futuro.

